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Saudações, visitante! Neste momento, você se encontra no Hishoku no Sora, um blog pessoal sem fins lucrativos. Aqui se fala de tudo um pouco, então fique à vontade!
A versão atual é inspirada no filme Corpse Bride, de Tim Burton - estrelando a protagonista Emily ♥

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Kawasumi Shana, 24 anos e contando +1 todo dia 7 de fevereiro - logo, sou toda aquariana. Adoro música, mangás, animes, filmes e livros. Odeio insetos, injeções e filmes de terror, sou criativa e contraditória, possivelmente tenho um parafuso a menos - mas juro que sou legal. Ou não. more?

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Hishoku no Sora
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Bruxas do 31 | Um conto maldito

Maldições, pobres mortais! Mais uma semana, mais um post do Bruxas do 31 - que dessa vez atrasou por puro bloqueio criativo, de verdade. Até o momento, temos trazido várias histórias pra que vocês possam contar a outros mortais e aterrorizá-los por aí. Uma bruxa, contudo, precisa também deixar a sua marca em algum momento, criar suas próprias misturas e feitiços e, bem, logicamente, contar sua própria história, não é mesmo?
Assim, o post de hoje é um conto escrito por mim, e o da Tenie será um conto escrito por ela. Parecia uma ótima ideia, até chegar a fatídica sexta-feira e nenhuma das duas conseguir inspiração pra escrever algo. Ainda assim, maldição de bruxa é sempre certeira, e depois de algumas misturinhas e poções, eu finalmente consegui produzir algo digno de ser contado pra vocês.
Para que a produção fosse mais divertida, acabamos fazendo um pequeno desafio: cada uma de nós escolheu 10 palavras e 3 músicas, e dessas sorteamos 5 palavras e uma música pra servir de inspiração para o conto. Além disso, cada uma escolheu uma imagem pra inspirar a outra, e com isso construímos nosso Prompt. Segue abaixo o que eu recebi:
Música: The Howling - Within Temptation | Música x Letra
Palavras: Amaldiçoadx - Vela - Chama - Castelo - Viagem
Imagem: Veja aqui.
Primeiramente: é altamente recomendado escutar a música do promt ao ler o conto - vocês sabem, pra criar aquele clima. Em segundo, eu e Tenie acabamos não definindo se as palavras deveriam necessariamente aparecer no texto ou se serviriam apenas de inspiração - contudo, eu achei que seria mais desafiador se eu tivesse que de fato usá-las no corpo do texto, em vez de só me inspirar com elas ou algo assim, então tomei a liberdade de fazer isso (embora não fosse ter muito sentido ter as palavras se elas não fossem usadas no texto? Que seja). Assim, às palavras serão destacadas conforme aparecerem no texto, pra garantir que todas foram usadas!
Tudo explicadinho, vamos em frente com nossa história de horror!


Os lobos uivavam ao longe.
Em outro momento, ela certamente tomaria seu tempo entre as árvores, caminharia sem rumo e se permitiria admirar a beleza da lua cheia – ela estava particularmente bela esta noite. Como uma dama que veste o melhor vestido para o funeral de seu marido, a lua brilhava intensamente. Se era um presente de boas-vindas ou de despedida, ela não saberia dizer.
Por hora, ela precisava correr.
Os pulmões queimavam, os músculos doíam, o sangue corria como fogo líquido em suas veias. Apesar dos nítidos sintomas de exaustão, ela segurava o pequeno embrulho choroso em seu colo com uma das mãos, enquanto a outra era usada para desviar dos galhos secos de árvores mortas. O corpo gritava em protesto, mas ela estava determinada. Alguém precisava sobreviver. Eles precisavam pagar. Os lobos uivavam ao longe.
O som de seus irmãos se esvaindo em sangue.

*****

- Os humanos nos espreitam, senhor.
- Acalme teu coração, Aiyra. Os homens nada podem contra nós.
- Nossa vaidade há de ser nossa ruína, meu senhor – respondeu pesarosa – Os humanos são capazes de mentiras e artimanhas das mais vis.
- Aiyra.

Um pequeno calafrio percorreu sua espinha, e seu corpo curvou-se em submissão antes que pudesse pensar a respeito. A autoridade de um líder conferia-lhe poder sobre os demais, ainda que pela mera entonação de sua voz. Ela sabia, portanto, que havia transpassado algum limite tênue, ainda que os laços sanguíneos lhe permitissem alguma voz perante o senhor de seu clã.

- Minha criança – chamou, desta vez mais suave – Minha neta. Durante muitos invernos temos vivido nestas terras, antes que os homens pudessem sequer imaginar suas casas e famílias adentrando as florestas. A luz do luar nos protegerá de quaisquer ameaças, minha jovem. Os homens nada podem contra nós; se nos espreitam, é porque temem a nossa força. – Ele lhe sorriu de maneira acalentadora, embora incapaz de acalmar a tempestade em seu coração.

Ela ouvia os uivos de seus irmãos. Eles soavam como sangue e morte.

*****

Seu coração batia dolorosamente contra suas costelas. O pequeno embrulho em seu colo movia-se entre os tecidos e peles que o agasalhavam. Tentou controlar a respiração, e seguiu em direção às portas do castelo. A viagem tinha sido longa e cansativa, mas nada a faria voltar atrás agora.
Eles pagariam. Os malditos homens pagariam.

*****

- O que tem depois da colina, mamãe?
- Você não deve ir lá, Aiyra – disse, acariciando os cabelos negros da criança em seu colo – Depois da floresta, das colinas e das aldeias, vive uma mulher maldita.
- O que é uma mulher maldita, mamãe?
- Uma mulher muito sábia, minha filha. Uma mulher muito poderosa, que ninguém jamais poderá dominar.

Em sua pequena mente de criança, Aiyra se viu correndo entre as árvores, seus pelos brancos e macios acariciados pelo vento. Ela se viu no topo da colina, forte, independente, livre. Indomável.

- Mamãe, eu quero ser uma mulher maldita!

Sua mãe sorriu.

*****

Ela observou o entalhe das pesadas portas de madeira. Determinada, bateu com firmeza usando sua mão livre, e deu alguns passos para trás. Esperou. Ao longe, ouviu o rugido dos trovões. O céu chorava por seus irmãos, ela sentia em seus ossos. Mas não ela. Aiyra era uma guerreira, e seu luto esperaria o tempo que fosse – antes, viria sua vingança.
Seu devaneio foi interrompido pelo som das pesadas portas se abrindo. Da escuridão, iluminada pela chama trêmula de uma única vela, surgiu uma dama – a personificação da própria lua, pensou Aiyra. A pele corada contrastava com o vestido branco, e os longos cabelos louros cascateavam pelas costas. Os olhos azuis brilhavam na escuridão.

- Você veio de muito longe, minha jovem. O que traz os lobos à minha morada?

- Minha senhora – disse a jovem, curvando-se ligeiramente – Eu venho pedir-lhe ajuda. Os homens atacaram minha matilha. A vaidade cegou nossos olhos para a sua ameaça, e muitos de meus irmãos foram exterminados. Eu não tinha para onde ir – ela levantou o rosto, olhando diretamente para os olhos da mulher. Eram gentis.

A mulher sorriu de maneira estranha. Aiyra sentiu um arrepio percorrendo sua espinha.

- Era uma questão de tempo para que o destino amaldiçoado dos lobos se desenrolasse. Os homens que eles tanto subestimam são capazes de coisas muito vis, minha querida. Não me admira que a vaidade os tenha cegado... Mas me entristece, contudo, que duas crianças tenham atravessado a floresta e cruzado as colinas sozinhas. Como posso lhes chamar? – Ela disse, a voz suave, virando-se ligeiramente, dando passagem para que a jovem adentrasse o castelo.

- Eu me chamo Aiyra, minha senhora. E o filhote que carrego é Aaron. Nós somos a única esperança de nosso clã, e eu venho pedir-lhe ajuda para lutar.

Olhos azuis a examinaram minuciosamente. Naquela jovem, de corpo esbelto, ela viu força. Os olhos pegavam fogo.
Indomável.

- Vejamos o que uma bruxa pode fazer por você, Aiyra.

*****

- Senhor!  Os homens! Estamos cercados, senhor!

Aiyra virou-se violentamente, tentando localizar seu avô com os olhos. Ouvia gritos, ouvia uivos de sangue e de morte, o brilho alaranjado do fogo alastrando-se pela floresta mais rápido do que as patas de qualquer lobo de seu clã. Entre mortos e feridos, a matilha diminuía alarmantemente; a maior parte dos guerreiros jazia caída. As mulheres pegavam em armas, enquanto as crianças mais velhas cuidavam dos filhotes. Não havia mais para onde correr.
A vaidade lhes custaria suas vidas, pensou.
Quando os olhos finalmente encontraram o homem imponente, Aiyra abriu a boca, pronta para gritar seu nome. Para o inferno com as hierarquias: ela precisava falar com seu avô, e precisava agora. Antes que as palavras se formassem em sua garganta, seu corpo foi violentamente puxado para trás.

- Aiyra, me ouça – disse a mulher, os olhos firmes – Você precisa sair daqui.
- Mãe! – chamou, numa mistura entre grito e sussurro – Eu jamais deixaria a matilha para trás!
- Me escute, Aiyra! Você é nossa única esperança agora.

Antes que pudesse questionar, a jovem foi arrastada para as bordas da floresta, onde os homens ainda não haviam chegado. Sua mãe a levara ao encontro de uma mulher, com um pequeno embrulho nas mãos.
O protegido.

- Aiyra, eu preciso que me ouça, e preciso que acredite em mim. Preste muita atenção – sua mãe colocou as mãos em seus ombros, seus rostos a centímetros de distância – Quando você era criança, você me perguntou o que havia além da colina.
- Uma mulher maldita.
- Sim, meu anjo. Uma mulher maldita. Uma mulher amaldiçoada pelos machos de nosso clã por ser indomável. Uma bruxa.

Aiyra arregalou os olhos. Seu olhar correu rapidamente para a mulher carregando o protegido em seus braços, recostada em uma árvore. Fitou novamente sua mãe.

- Há muitos invernos, as bruxas nos alertaram sobre os homens. Elas nos alertaram do massacre e da matança, mas nossos irmãos as tomaram como ameaça. Disseram que suas presenças carregavam mau-agouro, e isolaram-se nestas terras. Uma delas nos disse que nossa esperança seriam duas crianças, Aiyra. Uma com olhos de gelo, e outra com olhos de fogo. Você entende o que digo, minha filha?

Aiyra sentiu a informação ser absorvida em ondas, batendo em seu peito e alastrando-se por seu corpo. Os lobos de seu clã tinham olhos azuis, dourados, castanhos. Apenas dois destoavam dos demais – o primeiro, o protegido, tinha os olhos mais estranhos que já vira, de um vermelho sangue, por vezes alaranjado como o fogo, motivo pelo qual fora escondido pelas mulheres do clã. O outro era uma menina, já mulher, que nascera com os olhos acizentados. Frios como gelo, dissera seu avô.

“Que o seu coração jamais seja gelado como seus olhos, minha pequena Aiyra”.

Ela fechou os olhos, e respirou fundo. Ela sabia. Ela sempre soube que a vaidade seria a ruína da matilha.

- Qual a direção, minha mãe?

Sua mãe sorriu.

- A lua há de guiar-te, minha filha.

*****

Nas primeiras luas, Aiyra percorreu a floresta pelas sombras, buscando resquícios de seus irmãos. Encontrou as crianças, três jovens lobos feridos e uma das mulheres. Uma pequena família conseguira salvar grande parte dos filhotes, embora às custas das próprias vidas. Aiyra queimou seus corpos em uma noite de lua cheia, junto com ramos de lavanda.
O castelo não era amaldiçoado, embora os rumores afastassem os homens. A mulher maldita os acolhera, com sorrisos e tecidos quentes, que ela chamava de algodão. Ela lhes ensinara sobre as folhas e as flores que não conheciam, sobre o sol e a lua, sobre tudo o que se transformava e sobre a liberdade. Ensinou-lhes, principalmente, sobre correr pelas sombras, sem deixar vestígios.
Eles se preparam. Por muitos e muitos invernos, Aiyra ensinou as crianças, sua irmã e a bruxa cuidaram dos filhotes. Os jovens fortaleceram-se com o passar das estações.
Os homens não saberiam o que lhes havia atingido.

*****

Em certa noite de lua cheia, ouviu-se de longe, além das colinas, os uivos dos lobos. Mas não os uivos de dor ou saudade, de sangue e morte. Os uivos anunciavam o início da matança.
Era o som da vitória.

*****

- Minha senhora – disse Aaron, curvando-se ligeiramente em submissão à sua líder. Esperou até sentir os olhos acizentados sobre si para levantar o olhar – Os humanos nos espreitam.

Sua risada – tão reluzente quanto às estrelas, se perguntassem a ele – ressoou pelo recinto. Os lábios desabrocharam num sorriso debochado.

- Estes seres imundos não aprenderam com as histórias, não é mesmo, Aaron?

Ele se permitiu um sorriso.

- Ao que parece persistem nos erros, minha senhora.
- Pois ensinemos a eles o respeito, Aaron. Diferentemente dos homens, os lobos aprendem com sua história. Tudo se transforma em algum momento, mesmo a lua que nos guia no céu. Já não pereceremos por nossa vaidade. Afinal, a força está em nos aperfeiçoar e transformar nossas falhas, não?

Aaron endireitou-se, olhos de fogo em chamas. Um sorriso debochado cortou seu rosto, os músculos latejando em antecipação. Esperou que sua senhora assumisse sua forma reluzente, a pelagem branca brilhando sob a luz do luar. Os olhos de gelo pegavam fogo.
Nada, nem mesmo ele, seria capaz de derreter o gelo e penetrar o domínio de sua senhora. Uma mulher maldita, diziam os mais velhos, que ousara adentrar as terras amaldiçoadas daquela que vivia além das colinas. Uma senhora maldita como uma bruxa.
Aiyra, a indomável.



... Não sei dizer se fiz um conto de halloween, mas é o que temos pra hoje.
Pois bem, fica aí nosso conto. Tive o cuidado de não deixá-lo muito longo - na verdade, eu comecei a escrever outro na sexta-feira, e me dei conta de que precisaria de mais do que 10 páginas de word pra desenvolver minha ideia. Esse nasceu um pouco do nada, cresceu bem rápido e, bem, eu li duas vezes, então espero que não tenha nenhum erro e nem que tenha ficado confuso mesmo com a revisão.
Vale lembrar que o Halloween é uma boa época pra exaltar as Bruxas, que assustam tanto os homens com seu poder e conhecimento desde os primórdios. Bruxas dessa blogosfera, uni-vos!
Com isso, podemos nos despedir do Bruxas do 31 com chave de ouro. É claro que, dia 31, estamos de volta - porque não dá pra encerrar o Bruxas do 31 no dia 28, não é mesmo? Que afronta.
Que os espíritos angustiem vossos corações até nosso próximo encontro, malditos mortais! Até!


Esse post faz parte do projeto Bruxas do 31. Para saber mais, clique aqui! Visite também o Kakumei Blog para acessar a outra postagem sobre o tema.

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By Shana • sábado, 28 de outubro de 2017 • 1 ComentáriosLink to this post


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